Uma instituição doente – Por: Flávio Ramos

A recente greve da Polícia Federal trouxe ao debate um problema muito sério enfrentado em muitas organizações do país, mas que nem sempre é percebido por seus administradores: o suicídio. Considerado por muitos como uma válvula de escape para problemas infinitamente maiores que os nossos, e, por outros, como uma covardia e/ou ato de coragem, o suicídio nasce de um intenso momento de stress, que só quem já vivenciou problemas de depressão sabe o que significa.

No Departamento de Polícia Federal, somente no ano de 2012, foram 08, num efetivo de cerca de 10 mil policiais . Para se ter uma ideia do problema, basta comparar com o efetivo da Polícia carioca, que hoje, somados militares e civis, atinge o número de 50 mil servidores da segurança. Lá, o número de policiais que tiraram a própria vida foi de 06, um índice de, no mínimo, 500 vezes menor. E vejam que o stress enfrentado pela polícia carioca é muito maior que o dos policiais federais, que por suas atribuições, não enfrentam o mesmo tipo de criminalidade que seus colegas cariocas.

Então, o que leva um Policial Federal, com nível superior, embora com salário de nível médio, a cometer tal ato desesperado? Algumas razões para isso podem ser elencadas através da análise do serviço que hoje é prestado para a população e, principalmente, dos locais. Quando um Agente ingressa nos quadros, mesmo que seja gaúcho, catarinense, carioca, etc, não tem a segurança de retornar a seu lar, ou pelo menos para seu estado. Numa política ultrapassada de lotação em fronteiras inóspitas, é lá que os aprovados em concurso e curso são lotados. Em alguns casos, nem nas férias conseguem visitar seus entes queridos, tal é a distância a ser percorrida. Lugares sem a mínima infraestrutura são oferecidos aos novos policiais, que muitas vezes, longe da família, sequer sabem como alugar uma casa, comprar móveis, ter uma decente. Para inúmeros é o primeiro emprego. Um sonho realizado que logo em seguida se transforma em pesadelo.

Não bastasse a distância da família, em outros locais sequer telefone ou internet são eficazes para comunicação. Para piorar, um planejamento errôneo que traz num concurso de remoção a única possibilidade de transferência, senão pela via judicial. É sabido que um funcionário, quer seja público ou privado, produz muito melhor próximo a seus familiares. Para um policial que enfrenta a criminalidade no dia-a-dia, esse suporte é mais importante ainda. São eles que os esperam em casa, com um abraço, um chimarrão, tererê, água de coco, etc, para uma conversa ao final da tarde, quando os problemas são debatidos. Mas como fazê-lo se a família está há mais de 3, 4, 5 mil quilômetros de distância?

Some-se a isso a incapacidade administrativa dos gestores em melhorar as condições de trabalho dos policiais. Não é culpa das autoridades policiais. Eles são formados em Direito, portanto sabem de leis, e não de administração. Cometem erros como todo ser humano. Assim como a faculdade de Direito não ensina a investigar, também não ensina administração. Quem dirá ensinar a administrar seres humanos e seus sentimentos. É necessário repensar a Polícia e a Segurança Pública no país. Não precisamos só de doutores formados em Ciências Jurídicas, precisamos de administradores, psicólogos, cientistas, colocados em seus devidos lugares. É necessário se apontar soluções clínicas para uma instituição doente, que faz com que seus membros se encaminhem para o trabalho sem qualquer tipo de motivação, exercendo suas funções como robôs autômatos, e não como cidadãos, possuidores de direitos e deveres. O orgulho que muitos possuíam está abalado, quase inexistente.

Mas o pior de tudo é saber que muitos colegas, ao pensar em tudo isso, encontram no suicídio uma saída errada para seus problemas. Não há de se condená-los, afinal a mente humana ainda é uma ilha deserta, inexplorada na sua totalidade. Só quem passou por problemas de depressão sabe que a partir do momento em que nos tiram o chão para pisar, o que mais no vem no pensamento é justamente isto: o suicídio, que pode temporariamente resolver o problema de quem o comete, porém não resolve os problemas de uma instituição e muito menos da sociedade.

É necessário repensar as instituições, quer sejam policiais ou não, e sabermos que sem auxílio médico, familiar, pessoal, não conseguimos resolver nossos problemas. Foi-se o tempo em que o policial era tido como durão, macho ao extremo, que, além de seus afazeres habituais, ainda se preocupava com toda sua vizinhança e resolvia os impasses na base da porrada. Policial, acima de tudo, é ser humano, e como todo ser humano precisa de cuidados, principalmente da própria sociedade que jurou defender.

 

Flávio Ramos – Bacharel em Direito; Pós Graduado em Segurança Pública pela FGV.

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