Servidores de governos em crise têm dificuldade de manter contas em dia

O sargento gaúcho Cesar Formoso da Costa, 49, substituiu o carro pelo ônibus. No Rio de Janeiro, a fisioterapeuta Ana Couto, 53, só teve festa de Natal porque um amigo bancou os custos. As contas de ambos estão em atraso, e as famílias fazem economia até no leite do cafezinho.

Ambos são servidores estaduais, em governos que vivem grave crise financeira e têm atrasado ou parcelado salários, postergado reajustes e suspendido contratações.

No mês passado, governadores de 14 Estados ameaçaram decretar situação de calamidade devido ao estado das contas públicas, que atribuem à crise econômica.

“Não estamos preocupados em fechar a conta do ano; estamos preocupados em fechar as contas do mês”, declarou o governador de Mato Grosso, Pedro Taques (PSDB).

Se até o ano passado os cortes atingiam investimentos e obras, neste ano a crise chegou à folha salarial, principal encargo dos Estados. Alguns anunciaram parcelamento ou escalonamento dos salários; outros suspenderam reajustes e concursos.

Em grave crise fiscal, o governo do Rio atrasa salários mês após mês desde dezembro. O décimo terceiro de 2015 foi pago em três parcelas.

Servidora há 26 anos, Couto tem dificuldade para arcar com as contas. A luz e o condomínio estão atrasados, assim como o cartão de crédito e parcelas da pós-graduação.

O impacto na casa da servidora é duplamente sentido: a filha Anna Carolina, 25, que mora com ela, trabalha numa empresa terceirizada que presta serviço ao governo. Sem receber, os funcionários foram mandados para casa.

“O dinheiro que entra é para pagar o básico, as contas atrasadas e os juros”, diz.

O celular só não foi cortado pela solidariedade de um amigo, que arca com a conta, assim como faz com o plano de saúde privado —o Estado do Rio não fornece assistência aos servidores da saúde.

Até então, Couto só havia sofrido com salário atrasado no governo Benedita da Silva, em 2002, por três meses.

Raquel Cunha/Folhapress
RIO DE JANEIRO - RJ 07.10.2016 - A fisioterapueta Ana Maria Pereira Couto, 53, anos é servidora estadual ha 23 anos. Ela esta com o salario atrsado ha mas de 50 dias. Devido a falta de pagamento por parte do Estado, Ana tem tentado fazer bicos e atrasado algumas contas. Ela conta tambem com a ajuda de amigos para pagar a conta de celular e plano de saude. (Foto: Raquel Cunha/Folhapress, PODER) ***EXCLUSIVO***
A fisioterapeuta Ana Couto, 53, que tem dificuldade para pagar contas devido a atrasos do governo do Rio

CAFÉ SEM LEITE

Policial há quase 30 anos, o gaúcho Costa já passou por vários governos e crises, “mas nenhuma igual a essa”, diz.

Há oito meses consecutivos, o governo de José Sartori (PMDB) pedala os salários dos funcionários do Executivo —Legislativo e Judiciário recebem normalmente.

Membro da Brigada Militar (a PM gaúcha), Costa passou a deixar o carro todos os dias em casa para ir ao trabalho.

A passagem de ônibus na capital gaúcha é gratuita para policiais que estejam vestindo seus uniformes. Usá-lo fora do expediente, porém, faz do sargento um alvo.

Por esse motivo, Costa comprou um colete à prova de balas com o próprio dinheiro, para usar nos deslocamentos. Gastou R$ 780.

A compra se somou a dezenas de outras que agora precisam ser parceladas no cartão de crédito. O sargento está com o nome “sujo” e fez dois empréstimos para tentar deixar a conta no azul.

Costa afirma que economiza “até na panela”. “Tomamos café preto para economizar no leite”.

Em Minas Gerais, os servidores não recebem qualquer reajuste há três anos. Neste ano, para piorar, o governo de Fernando Pimentel (PT) passou a parcelar os salários em até três vezes.

“O que mais impacta para mim é a perda do poder de compra”, diz José Lino dos Santos, 41, servidor do sistema prisional há oito anos.

“É um salário de sobrevivência, para comprar uma feira e pagar aluguel. É água, luz e comida. Só.”

Em Mato Grosso, que começou a escalonar o pagamento de salários neste mês, o servidor James Jaudy, 50, já tem contas atrasadas.

Quem ganha acima de R$ 6.000, como ele, só recebe dia 10. Os demais continuam recebendo no dia 30.

Jaudy questiona a extensão da crise, como argumenta o governo –que também reduziu o horário de funcionamento das repartições estaduais e parcelou o reajuste.

“Mato Grosso tem uma economia pujante, continua arrecadando mais. E o governo está quebrado?”, diz. “Nós fomos pegos de supetão.”

 

Fonte: Folha Online

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