Ser ou não ser – Por: Janaina Zorzato

Ontem foi dia 04 de dezembro, e estava um dia lindo em Porto Alegre. Um pouco de chuva, e muito sol. Tudo normal, as pessoas trabalhando, estudando, enfim, vivendo.

Olho meu telefone e uma mensagem me assusta. Aquele tipo de mensagem que te deixa uns segundos sem ar, meio abobalhada, meio sem acreditar, querendo que seja só um boato.

Confirmei com um querido amigo e colega. E, infelizmente, era verdade.

Mais um policial federal cometeu suicídio. Não vou transcorrer aqui sobre estatísticas ou quem não faz o que pelos policiais. Quero somente mostrar o que sinto.

Muito já se especulou sobre o assunto, muitas teorias, abordagens, e por mais que se busquem respostas, nunca as teremos. Cada um de nós tem nossas dores, tristezas, fraquezas, e claro, maneiras de lidar com elas. Nem sequer seria possível um estudo científico sobre o assunto. Quem seria o grupo de controle?

Quando ouvimos que alguém tirou a própria vida, é inevitável pensarmos nos que lutam em hospitais para manter a sua, os que estão angustiados em filas de transplante, os que sofrem de doenças incuráveis. Porque uns lutam tanto, e outros, em um sopro, acabam com a sua.

Bem, porque não é um “sopro”, não é um único momento de loucura ou insensatez. Acreditem, quem se mata já pensou na hipótese muitas vezes. Joguem no google “suicídios sem dor”, e espante-se com a quantidade de ocorrências.

Suicídio não é “uma morte besta”. Se formos pensar bem, e é melhor não pensar, a vida é besta. A vida dói. Viver mata. E, por favor, não fique aí parado lendo isto e fazendo de conta que a vida não te assusta.

“Ser ou não ser, eis a questão”. Este trecho tão conhecido de Hamlet é sobre suicídio. “Ser”, estar vivo; “não ser”, morrer. E Shakespeare ainda questiona: “será mais nobre em nosso espírito sofrer pedras e flechas/Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja/Ou insurgir-nos contra um mar de provocações/E em luta pôr-lhes fim? Morrer… dormir: não mais”.

O suicído é uma mensagem brutal, um recado violento, um BASTA enfurecido. Infelizmente, um recado para o qual não podemos dar resposta. Não podemos mais segurar a mão da pessoa e dizer “o que tu tens?”,” O que tu precisas?”, “Senta aqui, vamos tomar um café”.

Quem se suicida não quer se livrar da vida, quer se livrar da dor. Aos suicidas, só ouço acusações, julgamentos. Nem na morte eles encontram paz. Se é nobre e belo morrer em batalha, por que o suicídio é demonizado? Não seria ele uma forma de vencer a batalha contra um eterno sofrimento que nenhum remédio – amor, amigos, bens materiais – consegue suprimir?

Por que para nós é sempre tão fácil julgar? Apontar o dedo na cara? Por que nunca paramos e olhamos o outro para dentro dele? Porque a empatia é artigo de luxo. Talvez as coisas estejam como estão porque ela, a empatia, também se suicidou. Ela não aguentou conviver com os humanos. Quem pode culpá-la?

O mundo se divide em 7 bilhões de tipos de pessoas.

Aos suicidas só restam julgamentos: “era um covarde”, “ele foi egoísta, não pensou na mulher/filhos/mãe/pai”, e como se não bastassem as acusações do mundo real, ainda carregam os dogmas religiosos – “quem se mata joga fora uma reencarnação, vai para o Vale dos Suicidas”, “vai para o inferno, deus não perdoa”. Interessante que, em algumas culturas e crenças antigas, o suicídio era visto com bons olhos, uma homenagem aos seus deuses. De onde se conclui que estas religiões são mais coerentes do que as ocidentais. Já que o mundo é um lugar de dores e provações e o céu é onde descansaremos disto tudo na glória eterna… Bem…

Eu lembro deste colega. Trabalhava no mesmo prédio que eu, via ele eventualmente. Era de uma aparência frágil, com grandes olhos claros. Sempre achei que aqueles olhos imploravam por algo, pareciam dizer: “olha para mim”. Mas eu não olhava, eu estava sempre muito preocupada comigo mesma, minhas coisas, meu trabalho, meus horários, meus compromissos. Agora é tarde. Sempre é.

Em apenas uma semana eu ouvi de três, sim, TRÊS pessoas, que elas estavam pensando, ou já pensaram em se matar. Mas desistiram. Ufa!!

É sábado de manhã. Outro lindo dia de sol. As pessoas continuarão acordando, tomando seu café, indo ao shopping, fazendo suas coisas banais de sempre. Porque a grande tragédia é essa, quando morrermos, o mundo vai continuar a girar. O sol vai nascer, vai chover, ventar, a bolsa vai subir, o dólar vai cair, o café vai esfriar na xícara, porque nem para isso encontramos tempo. A vida passa num sopro, passa rápido demais. Sim, é um clichê, mas só é um clichê porque é verdade.

E que no final deste sopro tenhamos forças para dizer: “Apesar de tudo, eu aguentei firme”. Porque olha, não é nada fácil aguentar firme. Não, não é.

Eu te entendo colega suicida, acredita em mim, eu te entendo perfeitamente bem. E tu não precisas do meu perdão nem do de ninguém. A vida é tua. Porque é muito injusto, mesmo após a morte, termos que carregar nas costas a responsabilidade sobre os que ficaram. Basta! Eles que aguentem firme. Eles que carreguem seu Hamlet e conversem com ele sempre que a loucura e a insensatez de estar vivo lhes permitam.

 

*Janaina Zorzato – Agente de Polícia Federal SR/DPF/RS

 

 

 

 

 

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