Futebol: o dia seguinte…

O futebol faz parte da minha vida mais do que eu gostaria, é quase um vício, sinto “crise de abstinência” quando tento me afastar… Até amizades ficam estremecidas, mas tenho certeza de que amigos de verdade sabem que é apenas um jogo, nada mais do que um jogo. Quando o Grêmio – o imortal tricolor – participa de uma decisão, meu dia começa diferente… Preciso explicar por que me preocupo com algo tão supérfluo, que alguns dizem ser a coisa mais importante entre as menos importantes… Talvez seja influência da terra natal, pois o Rio Grande do Sul é marcado por um dualismo trágico levado às últimas conseqüências em todas as atividades, não existe meio termo… Começou com os ximangos e maragatos, inimigos políticos com uma característica marcante: a de utilizar a bárbara degola como algo rotineiro…

Embora a vontade seja imensa, hoje ninguém degola adversário, mas a “guerra” continua: o vermelho petista contra o restante, até chegar na rivalidade que envolve o vermelho e o azul do Grêmio e do Internacional. Nessa guerra, as cores tradicionais são usadas desde a maternidade. Quando visitamos um recém-nascido, uma pequena camiseta pregada na porta do quarto já nos informa para quem o indefeso bebê “escolheu” ser torcedor para o resto da vida… Todos sabem que o futebol, embora seja apenas um esporte, se diferencia de outras paixões. É fácil explicar: já vi gente trocar de amor, de partido político, e até de religião, mas a escolha do clube preferido é para sempre.

Soube de uma estória que ilustra bem esse desvario: um sujeito teve um problema de saúde na madrugada. Sua mulher, que não sabia dirigir, chamou um táxi. O cara estava mal, o táxi demorando. A chegada do mesmo foi um alívio para a mulher. Com a ajuda de vizinhos, ela levou o doente até a rua. Ele, apesar do lastimável estado em que se encontrava, ao ver o motorista começou a gritar: – Esse, não! Esse, não! A mulher, desesperada, perguntou o que estava acontecendo. – A camisa, a camisa – repetia o doente. Foi nesse momento que ela percebeu que o motorista vestia uma camisa do Internacional… Ele repetia: – Tenho medo de morrer no caminho. Essa camisa dá azar, dá azar… Chama outro, chama outro…

Nesta semana, o futebol me fez passar por uma das suas. O Inter disputou mais uma partida do campeonato nacional. Era um jogo sem muita importância, daqueles que não mexe com a emoção, em início de campeonato. Meu vizinho, um torcedor empedernido do Inter, me convidou para assistir o tal jogo. Preparou um belo jantar para encarar o frio, escolheu com cuidado o vinho e fomos para frente da TV. Confesso que aceitei o convite por cortesia, pela consideração que tenho por ele. Foi inevitável: cada vez que havia perigo de gol para o adversário dos vermelhos, eu quase não conseguia esconder minha torcida para a bola entrar… Teve um lance duvidoso que eu quase gritei para o jogador adversário do Inter: – Pega que é “nossa”…

Meu amigo repetia a conversa de que “os gaúchos” deviam torcer para os times do Estado, coisa e tal, que seria uma vitória do futebol gaúcho – aquelas bobagens que dizem da boca pra fora, pois a taça vai mesmo é para a sede de quem vence o jogo, nunca é entregue para a Federação Gaúcha. Por mais desimportante que seja o campeonato, é óbvio que prefiro vê-la longe do Beira Rio… Infelizmente, para meu desgosto, não foi o que aconteceu: os paulistas foram convenientemente garfados com a sonegação de um pênalti legítimo… Eles aceitaram passivamente – estou convencido de que não fazem mais são-paulinos como antigamente…

O dia seguinte é terrível no Rio Grande para quem não está festejando. Eu adoto uma tática. Não escuto rádio, não leio jornal, não olho televisão. Esqueço que existe um esporte chamado futebol. Ou melhor, quase esqueço, porque “eles” impedem que isso aconteça: meu celular fica entupido de torpedos me fazendo lembrar que o futebol não acabou… Já, quando tricolor imortal joga uma decisão, prefiro não olhar. Procuro um cinema, desligo do mundo e do celular… Fico o tempo necessário para o jogo acabar. Quando o filme chega ao fim, saio cabreiro, olhando para os lados, vendo qual a cor da camisa que está fazendo festa… Se a cor for azul, tudo volta ao normal – vou correndo para casa escutar todos os comentários e olhar televisão até o último programa esportivo…

Agora estamos construindo, claro, a melhor e mais moderna arena da América Latina. Como confio no tirocínio do nosso presidente, acredito que vamos construir junto um time quase invencível. Quanto ao Brasil, algumas mudanças: o país melhorou economicamente, o Cachoeira está nominando a quadrilha toda, e a “mãe do Pac” está arrochando o salário dos servidores, deixando de fora, como sempre, Judiciário e Legislativo. O STF vai finalmente julgar os “mensaleiros”, o tal inquérito policial continua. A bandidagem come solta, assaltando, sequestrando, usando celulares em prisões, e os de colarinho branco, soltos, como sempre. O dólar subiu, e a bolsa continua em queda.

Acho que a única mudança de cenário vai ficar por conta da revelação que uma cigana me fez: o Grêmio ganhará o campeonato nacional. No ano que vem, estaremos disputando a Libertadores na monumental Arena, observados de longe pelo “pessoal da beira do lago”…

e-mail vala1@uol.com.br
blog www.valacir.com


E-mail: vala1@uol.com.br
Blog: www.valacir.com
Veja as colunas anteriores
Temas , .

 

Ir para o topo da páginaIr para o topo da página