Eu e meu cachorro preto – Por: Janaina Zorzato

Sua vida vai muito bem obrigada, seu relacionamento é ótimo, seus familiares se dão bem e têm saúde, você tem amigos bacanas, planos para seu futuro, se dá bem com os colegas de trabalho, vai trabalhar feliz e, num belo dia (nem tão belo assim), uma bomba atômica de muitas ogivas nucleares cai na sua cabeça. Ela tem nome, a maldita, chama-se depressão.

Ela pode ser motivada por um evento inesperado: uma separação, a morte de alguém, a descoberta de uma doença terrível, uma pessoa infeliz que quer te ver e fazer infeliz, enfim, pode até mesmo nem ter motivo nenhum, pode ser desequilíbrio da sopa química que nosso cérebro carrega.

Mas esta bomba te desmonta. Banho? Pra quê? Comer? Pra quê? Levantar da cama não faz sentido. Tudo o que você quer é ficar no escuro, sem ouvir vozes nenhuma. Nem as da sua cabeça dizendo que você pirou de vez, já era, a casa caiu, mané! Eu cheguei! Eu sou a depressão e vou tentar acabar contigo, e será agora.

Bem, ela bateu na minha porta e eu, muito amistosa, deixei entrar, ela surgiu sim, com motivo, mas deixemos o motivo de lado, falemos sobre o sintoma.

Depois de uma semana chorando feito uma prisioneira de guerra, em cima da minha mesa de trabalho (Ufa! Colegas em viagem! Que bom não precisaram ver isto!), decidi procurar um psiquiatra. Falei para meu marido (que aliás, merece um altar com velas brancas e flores, e onde deveria me ajoelhar todos os dias), que eu estava fraca, infeliz, não queria acordar, tomava remédios tarja preta por conta própria, acordava desesperada. Para que viver? Por que viver? Não falam que o céu é o máximo? No céu é open bar gente!

Cheguei a sonhar que eu tinha morrido, e era um sonho sensacional! Eu virava uma bolha daquelas de sabão, sabe? Linda, leve, flutuando no ar…sem problemas…nada a resolver…nada a pensar…a morte é a libertação total, por que não flertar com ela?

Sempre tive uma relação saudável com a morte, sempre andamos de mãos dadas, ela é minha amiga fiel e sempre me confortou nos piores dias, sussurrando: “calma, estarei sempre aqui, qualquer coisa me chama”. É… sou deste tipo de gente que não tem medo de morrer, mas tenho medo de ficar careca. Vai entender…

Mas eu mergulhei fundo na minha depressão. Não escondi de ninguém, de amigos, colegas, familiares, todos ficaram devidamente informados sobre meu estado (deplorável), até porque seria injusto com eles não entenderem minha terrível e notória mudança de humor.

Vergonha de estar deprimida? Por quê? Quem tem diabetes tem vergonha da diabetes? Problemas cardíacos? É para esconder? É feio? O que vão pensar da pessoa? Tipo…”credo, viu o fulano? Ele infartou” “Nossa? Mesmo? Melhor se afastar deste tipo de gente”.

E, sim, as pessoas se afastam do deprimido. Mas vamos dar um creditozinho a elas – nós, os depressivos, também nos afastamos das pessoas – façamos justiça.

Mas olha…vou contar uma coisa. Encarei o problema de frente, já sabia o que era isso, já perdi o ranço do “coisa de gente fresca”, “reage amiga”. Tenho este problema muito bem definido na família, não foi novidade.

Procurei um psiquiatra, me mediquei, e, infelizmente, demorei para procurar o serviço psicológico, de alta qualidade, aliás, que o SINPEF/RS nos proporciona, mas agora estou em tratamento e está sendo ótimo, muito bom mesmo. Mergulhar em nós mesmos é uma viagem fantástica, eu garanto.

De tudo temos que aprender a tirar algo e bom, verdade? E a depressão me trouxe coisas boas, sim senhor. A começar: recebi apoio de pessoas que jamais suspeitei. Ganhei uma grande, inteligente e espetacular amiga. Vi que o mundo é lotado de parasitas, mas também é lotado de pessoas boas, que ajudam sem pedir nada em troca, porque nem tenho nada para dar a elas, e mesmo assim me estenderam a mão.

Também vi com quem posso ou não contar. Perdi uma pessoa que eu achava que era amiga, mas hoje vejo que só me usava para conseguir algo. Opa! Não perdi, me livrei.

Abri meus horizontes, busquei olhar para o lado, novos rumos, novos livros, respirei outros ares. Nem tudo é escuridão. Sejamos justos.

Enfim, meu cachorro preto está comigo. Controlado com muita tarjinha preta, mas está aqui. Um dia quem sabe, ele me abandona…assim espero. Mas por enquanto tento adestrar este cãozinho mal-educado e intrometido; um dia eu domino ele.

 

*Agente de Polícia Federal lotada na SR/DPF/RS

Temas .

 

Ir para o topo da páginaIr para o topo da página