ENTREVISTA: EPAs investem em formação e capacitação profissional

A formação profissional, a disposição de capacitação permanente e a alocação crescente de conhecimento são peças fundamentais para a geração da inovação e uma das prerrogativas para o árduo caminho da conquista da valorização profissional. Disponibilizar um cabedal cada vez maior de informações também é uma necessidade premente frente às especificidades e complexidade do crime organizado. Diante dessas constatações, faz-se imprescindível a especialização incessante dos policiais federais.

O SINPEF/RS está iniciando uma série de entrevistas e reportagens, com a intenção de incentivar essa capacitação e de valorizar aqueles que buscam o aprimoramento, emprestando seu notório saber ao desenvolvimento de processos e métodos para o engrandecimento da atividade policial federal.

 

ENTREVISTA: Agente de Polícia Federal BRUNO REQUIÃO DA CUNHA

O Agente de Polícia Federal BRUNO REQUIÃO DA CUNHA é um dos motivos de orgulho para o Departamento de Polícia Federal, e não por acaso recentemente convidado para ser membro do Comitê do Simpósio Internacional de Mobilidade e Estrutura de Redes Criminais – NetCrime 2015, organizado pela The Network Science Society e considerado o maior evento mundial da área. “Acredito ser um reconhecimento não só para mim, mas também para a Polícia Federal e para a UFRGS, uma vez que o convite foi resultado da visibilidade que meu trabalho de Doutorado em Física vem ganhando na área de Ciências de Redes, em especial em redes criminais”, diz com satisfação de quem tem o prazer de buscar mais e mais respaldo científico, além de formas de disseminá-lo e aplicá-lo no dia-a-dia do policial federal. Saiba, nesta entrevista, um pouco mais sobre sua trajetória e sua contribuição para o engrandecimento do DPF.

 

Qual sua formação profissional?

Sou Bacharel em Física pela UFRGS (2004) e Mestre em Física pela UNICAMP (2006). Em 2014, fui classificado em primeiro lugar no processo seletivo para cursar o Doutorado em Física pela UFRGS. Possuo 5 artigos publicados em revistas científicas internacionais de alto fator de impacto e participações em diversos eventos nacionais e internacionais, sendo o mais recente a apresentação de uma palestra na Fundação Getúlio Vargas/RJ durante o NetSci-X2015, o mais renomado congresso internacional de ciência de redes. Recentemente fui convidado para ser membro do comitê do primeiro simpósio internacional de redes criminais que acontecerá em junho deste ano em Zaragossa, na Espanha. Desde 2013 sou membro da International Association of Law Enforcement Intelligence Analysts.

Qual sua trajetória no DPF?

Em 2009, fui aprovado nos concursos públicos para Delegado da Polícia Civil do Rio Grande do Sul, Agente da Polícia Civil do Distrito Federal e Agente de Polícia Federal. No mesmo ano participei do curso de formação profissional da PCDF e comecei o curso de formação profissional para de Agente de Polícia Federal. Tomei posse em Porto Velho/RO, onde fiquei por aproximadamente 2.5 anos lotado na DRE, tendo sido gerente do Escritório de Inteligência Policial por um semestre. Durante meu período em Rondônia, participei de cursos de adaptação à selva pelo Exército Brasileiro, piloto de embarcação pública pela Marinha do Brasil e terrorismo pela ONU, além dos cursos promovidos pela SENASP de Análise Criminal, Lavagem de Dinheiro e Crimes de Cartel. Em 2011, participei do curso de investigações sensíveis do programa GISE. Fui removido via concurso de remoções para a Delegacia de Bagé em 2013, sendo lotado na UIP. Em 2013, participei do Programa Nacional de Capacitação e Treinamento para o Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro. Participei, como analista, de diversas investigações de vulto da Polícia Federal, sendo a mais recente a Operação Darknet da DELINST/RS – a terceira operação do gênero no mundo, que resultou na prisão de mais de 50 pedófilos que compartilhavam mídias ilícitas pela deep web.

Qual a importância da formação para a valorização profissional?

A diversidade de formação acadêmica do Policial Federal é um poderoso diferencial. Quando uma instituição se presta a investigar crimes tão complexos e de naturezas tão distintas, é necessário também que o investigador se especialize e busque soluções para enfrentar a criminalidade em escala nacional. Exemplos disso não faltam dentro da Polícia Federal. Não raro Agentes, Escrivães e Papiloscopistas desenvolvem ciência, ferramentas, conhecimento, processos e métodos inéditos e e conhecidos mundialmente. A cada dia temos mais colegas pós-graduandos, mestrandos e doutorandos. Além do mais, grandes projetos como são os casos do Palas, do Lince e do Unicart também foram desenvolvidos por EPAs. Contudo, o que se observa é que não há incentivo da Administração em valorizar esse profissional que não goza de nenhum tipo de apoio ou benefício – acabam por realizá-las por satisfação profissional e pessoal, por amor à causa. Medidas como a criação de setores de P&D (Pesquisa e Desenvolvimento) e valorização dos profissionais especializados e com formação mais adequada vão ser medidas cada vez mais necessárias, haja vista o constante aprimoramento da carreira policial federal.

Qual o tema da sua tese de doutorado e quais os objetivos da pesquisa?

O tema da minha tese de doutorado é o estudo da topologia das redes criminais. Redes, no sentido matemático, são estruturas cujas arquiteturas apresentam certas propriedades que se repetem independentemente do sistema físico que se está estudando. Em outras palavras, redes de neurônios, de átomos ou até mesmo de pessoas possuem características matemáticas muito semelhantes. Isso deu origem ao que hoje se chama de ciência de redes, tópico que teve sua gênese na física e na matemática aplicada e que hoje apresenta uma vasta multidisciplinaridade englobando áreas que vão desde as ciências da computação até a sociologia. Assim, conhecer a natureza e a arquitetura das redes e dos relacionamentos criminais pode resultar em métodos realmente eficientes de fragmentação desses grupos e de antecipação de suas ações.

Como o estudo pode contribuir para o desenvolvimento da atividade policial?

Uma das mais rápidas conclusões do trabalho é a necessidade urgente de se encarar o crime do ponto de vista macro, como uma verdadeira teia de relacionamentos muito mais ampla que o escopo de uma ou diversas operações policiais. O que se observa é que cada investigação pode afetar indiretamente num efeito em cascada todos os grupos criminais em atuação no Brasil – lembra daquele ditado: o bater de asas de uma borboleta no Japão pode causar tornados no Texas? É exatamente isso que estamos conseguindo modelar matematicamente. Hoje estamos perto de saber quais indivíduos devemos controlar para que toda a atuação criminal no Brasil tenha um declínio expressivo sem que os criminosos sequer saibam o que aconteceu. Claro que para tanto a atividade policial terá também que se readequar em breve. Não adianta a academia possuir todo o ferramental científico e matemático para enfrentar a criminalidade organizada se a Administração continuar focando detalhes burocráticos e linhas de ação com pouco ou nenhum respaldo científico. Além disso, o próprio policial-investigador precisará repensar em parte a sua postura, focando sempre os relacionamentos diretos e indiretos de todos os envolvidos na dinâmica criminal. Nesse ponto, o Policial Federal sai na frente, já que projetos como o Mosca e mais recentemente o Palas têm contribuindo muito para a massificação dessa cultura de redes.

 

Fonte: SINPEF/RS

 

 

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