ENTREVISTA: Agente de Polícia Federal Bruno Requião fala sobre a estrutura da polícia irlandesa e a aplicação de novas ferramentas científicas na compreensão de redes criminais

“A formação profissional, a disposição de capacitação permanente e a alocação crescente de conhecimento são peças fundamentais para a geração da inovação e uma das prerrogativas para o árduo caminho da conquista da valorização profissional”.  Com essa afirmação, o SINPEF/RS inaugurou uma série de entrevistas publicadas em seu site e demais redes sociais, tendo como entrevistado o APF Bruno Requião. Retomamos a série justamente com esse primeiro entrevistado que agora encontra-se na Irlanda para cursar seu Pós-Doutorado em Matemática Aplicada na Universidade de Limerick, orientando alunos de mestrado e doutorado

Agente de Polícia Federal, Bacharel em Física pela UFRGS, Mestre em Física pela UNICAMP e Doutor em Física pela UFRGS, Bruno Requião possui diversos artigos científicos publicados em periódicos internacionais de alto fator de impacto. Também teve participações anuais em diversos eventos nacionais e internacionais. Membro organizador do Simpósio Internacional sobre Estrutura e Mobilidade do Crime (NetCrime –https://netcrime.weebly.com) e membro da International Association of Law Enforcement Intelligence Analysts, ele é um verdadeiro exemplo de profissional focado na busca incessante de novos conhecimentos para fazer frente ao crime de forma cada vez mais eficiente.

1. Como está sendo sua experiência na Irlanda e seu pós-doutorado em matemática aplicada na Universidade de Limerick?

APF Bruno Requião: Vim para a Irlanda em 2018 para cursar um pós-doutorado em matemática aplicada na Universidade de Limerick com o Professor Jame Gleeson, uma das maiores autoridades em ciência de redes no mundo. A ideia foi aplicar essas novas ferramentas científicas na compreensão de redes criminais de interesse da Polícia Federal brasileira, para que possamos desenvolver novos conhecimentos científicos e propor maneiras efetivas de se enfrentar o crime no Brasil e no mundo. De fato, o crime é um fenômeno mundial que opera em grandes redes transnacionais. As polícias devem estar atentas a isso e aplicar o que há de mais moderno para combater o crime eficientemente.

2. Qual tua impressão sobre o funcionamento/estrutura da polícia Irlandesa traçando um comparativo com a brasileira?

APF Bruno Requião: A polícia irlandesa, chamada de An Garda Síochána nasceu em 1922. Possui um total de 16.610 funcionários, dos quais 13.751 são policiais e 2.310 são servidores administrativos. Uma proporção de aproximadamente 6 policiais para cada servidor da carreira de apoio. A título de comparação, a PF possui números muito semelhantes, mas a diferença é que o Brasil é 121 vezes maior que a Irlanda. Aqui na Irlanda, nenhum policial é tratado por pronomes como doutor, ou excelência (nem mesmo o Comissário, cargo equivalente ao de Diretor-Geral na PF). Outro dado importante é que se trata de uma polícia de ciclo completo e carreira única, na qual os cargos de gestão não são exclusivos a bacharéis em direito, mas a policiais com reconhecida atuação e experiência. Inclusive, nenhum dos recentes destinatários da organização possuem formação jurídica. Isso de fato dá pragmatismo à instituição, que é extremamente respeitada pela população, e gera efeitos positivos na gestão da segurança pública do país Europeu que figura como um dos dez mais seguros do mundo.

3. O que significa evidence-based policing?

APF Bruno Requião:Policiamento baseado em evidências nada mais é que a aplicação de evidências e testes científicos na gestão, direcionamento e planejamento tático-estratégico dos recursos policiais. É uma abordagem que conduz o gestor a tomar decisões conforme a pirâmide de evidências científicas empíricas e não segundo teorias, crenças, hipóteses, opinião ou discurso.

4. Qual a importância da introdução de uma abordagem científica na gestão do policiamento?

APF Bruno Requião: Se dá exatamente na opção por políticas de segurança pública baseada em evidências. O império do discurso, das hipóteses e das opiniões nos trouxe ao atual caos na segurança pública no Brasil. Com índices de violência superiores aos de países em conflitos, não há mais espaço para “achômetros” e “chutes” na gestão da segurança pública. É urgente que se comece a tomar decisões baseadas em evidências empíricas e suportadas na ciência moderna.

5. De que forma a sua pesquisa sobre uso da teoria das redes na compreensão e no combate ao crime organizado está sendo recebida pela academia na Europa? Já há uma utilização prática dessa teoria na Europa?

APF Bruno Requião:Temas como evidence-based policing e ciência de redes já são bem estabelecidos nas polícias europeias. De fato, grande parte das polícias do velho continente apresentam estrutura de carreira única e ciclo completo, com foco em abordagens multidisciplinares. Em especial a ciência de redes vem ganhando bastante atenção também nas edições do Simpósio de Mobilidade e Estrutura do Crime (Netcrime – https://netcrime.weebly.com/), que venho organizando há mais de 5 anos junto com outros pesquisadores do mundo inteiro. Outras cooperações também vem surgindo, inclusive com a An Garda Síochána (polícia nacional irlandesa) para mapeamento de redes criminais e localização de alvos-chave. Enfim, evidence-based policing, ciência de redes e várias outras áreas técnico-científicas se mostram hoje como um caminho para uma segurança pública eficiente e afastada do discurso fácil, retórico e ideológico.

 

Fonte: Assessoria de Comunicação SINPEF/RS

 

 

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