“Até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência?” – Por: Ubiratan Antunes Sanderson

Discurso de posse do Presidente do Sinpef/RS

Há 3 anos, quando recebi a presidência das mãos do meu amigo Paulo Paes, já vislumbrava que teria pela frente uma árdua missão. Desconfiava que iria muito mais “sofrer” o cargo do que fruir a função. Hoje posso asseverar que de fruição não tem nada. Zelar, guardar, incentivar e fazer garantir as melhores condições de trabalho e de dignidade profissional de todos e de cada um ao mesmo tempo é tarefa tão grata quanto difícil. Compromisso que nós da diretoria e os representantes sindicais das 13 delegacias do interior, reconhecemos nem sempre ser bem sucedido. Quase nunca bem entendido. Vez por outra compreendido. Muito raro aplaudido. Mas ainda assim realizada com máxima dedicação e comprometimento.

Obviamente que entidades sindicais e de classe não têm o poder de definir ou de reformar as estruturas, mas tem sim o poder e o dever de mobilizar a categoria e a sociedade, mobilização responsável, firme e inteligente, capaz de propor, por exemplo, a modernização do modelo policial brasileiro, juntamente com a valorização do homem policial, primeiro ator do cenário da pacificação social.

Há de se reconhecer que o cidadão não há de estar satisfeito com o sistema de segurança pública. Se nem nós policiais estamos! É chegada a hora de promovermos mudanças também nas estruturas policiais. Com o advento da CF/88 serviços basilares do Estado como saúde e educação passaram por processos de modernização, reformas que efetivamente melhoraram a vida dos brasileiros. A Segurança Pública não teve a mesma sorte e ainda seguimos operando com as mesmas regras do Brasil Império.

Cumpre a nós, servidores do povo, policiais federais com muito orgulho, atuar como agentes de transformação das instituições que envelheceram e precisam nova musculatura, pois na esteira das mudanças econômicas, sociais e tecnológicas não atendem mais às demandas da nação brasileira, que clama por segurança e paz.

Talvez estejamos vivendo tempos mais difíceis que outros. Talvez porque cada geração tenha a ilusão e um pouco de soberba de achar que o seu é o maior desafio. Mas é certo que se modificaram, na raiz, os paradigmas antes adotados e a violência social está sim presente na vida de todos e de cada um.

“Alguma coisa está fora de ordem, fora da nova ordem mundial”. CAETANO VELOSO nisso parece ser unanimidade. O caos na segurança pública está fora de ordem e cabe a todos nós (policiais, professores, advogados, médicos, trabalhadores e patrões) achar um novo rumo.

Temos visto o povo nas ruas, praças e esquinas buscando salvar seus direitos e tentando fazer aquilo que os políticos não fazem e nem querem fazer: construir um país justo e sem donos. Algo difícil, mas não impossível de acontecer, sobretudo se os homens e mulheres de bem acreditarem que um Brasil melhor é possível e buscar esse sonho é nossa obrigação.

Cansamos de ser o País de um futuro que nunca chega. O futuro é hoje e há de ser construído pela união de todos, com direito às diferenças e respeito à identidade de cada um, garantindo-se sempre a igualdade em direitos de todos e para todos.

A corrupção sistêmica encheu a nossa paciência. Maus políticos, maus empresários, más pessoas fazendo a festa com o dinheiro de todos. “Até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência?”.

Nós, Policiais Federais, exatamente por trabalharmos no desvendamento das podridões palacianas, não temos mais paciência com tanta bandalheira. Talvez seja justamente isso que tem nos tornado menos fleumáticos e mais intolerantes frente a qualquer espécie de abusos, sobretudo quando se trata de enriquecimento ilícito às custas do povo.

Ao contrário do que alguns vendilhões têm pregado, serviço público forte e qualificado não é problema e nem peso para o País, mas solução para a praga que parece não ter fim. Na visão de alguns, servidor público é privilegiado. Talvez o único privilégio que nós, servidores públicos policiais, temos é o de contribuir para que os “Catilinas” da República, vermes que só pensam em fazer fortuna na vida pública, sejam colocados na cadeia e deixem a nação crescer.

Uma covarde e mentirosa campanha foi lançada para fazer parecer que Serviço Público é desnecessário e por isso tem que ser aniquilado. Patos amarelos a anunciar quem realmente manda no País. Ironicamente, aqueles que não aceitam o controle de ninguém são os mesmos que gostam de falar de livre concorrência, mas que fazem de tudo por uma vantagenzinha criminosa. Essa retórica liberal não passa de um plano sórdido para acabar de vez com a única chance dos brasileiros: serviços públicos dignos.

Cada povo constrói a sua história e nós, a duras penas, mas com absoluto orgulho, estamos sim dando a nossa parte na construção dessa nova história. A sorte do país é ainda poder contar com instituições como as nossas, massas críticas que não desistem e jamais aceitarão passivamente desmandos das quadrilhas que se acham donos do país. Só não somos capazes de melhorar o que não tentamos melhorar.

Nossos problemas são humanos – portanto, eles podem ser resolvidos por humanos. E um homem pode ser tão grande quanto ele quiser. Nenhum problema do destino humano está além dos seres humanos.

Brasil, verás que um filho teu não foge à luta, entre outras mil és tu nossa amada Pátria, que jamais abandonaremos!

 

* Ubiratan Antunes Sanderson – Presidente do Sindicato dos Policiais Federais do RS

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