A necessária reflexão sobre o papel da mídia, dos operadores da segurança pública e da sociedade no atual cenário de brutal criminalidade

Diante dos acontecimentos que aterrorizaram três cidades brasileiras – Araraquara (SP), Cametá (PA) e Criciúma(SC) -, deixando-as reféns de bandidos destemidos e audaciosos, e considerando a forma como o ocorrido em Criciúma foi explorado ironicamente por um comunicador gaúcho, e a sua consequente repercussão pública, o Sindicato dos Policiais Federais do Rio Grande do Sul – SINPEF/RS propõe uma inevitável reflexão em meio a pífios índices de resolução de crimes, aliados a uma enraizada cultura do medo ou da banalização da vida.

Ao mesmo tempo que devemos denunciar a gravidade da crise da segurança pública, jamais podemos nos abster de um debate qualificado do controle da criminalidade. Defendemos de forma inquestionável a liberdade de expressão, mas que esta jamais atente ao direito fundamental da vida humana, da liberdade, da paz de que somos merecedores. Ainda mais se quem se expressa detém em suas mãos o poder de influência como formador de opinião pública. Mais do que nunca precisamos de um juízo de ponderação, levando em conta critérios de interesse público.

Toda e qualquer divulgação deve trazer em si a responsabilidade da finalidade a que se propõe. Qual o verdadeiro papel dos envolvidos nesse processo? De parte da mídia, é o excesso do sensacionalismo do crime? A espetacularização da violência? A ironização de atos brutais e covardes? De parte das instituições da segurança pública, é atrair os holofotes da mídia em busca de promoção pessoal? Meramente divulgar o aumento do número de operações em detrimento da devida valorização do capital humano que a elas se dedicam, muitas vezes expondo sua própria vida na defesa de outras? Queremos apenas uma audiência consumidora de violência ou queremos de fato uma mudança estrutural na segurança pública, através da efetividade de inquéritos policiais?

Atos violentos não podem deixar esvair o direito a uma vida tranquila, digna. Atos desumanos não podem dar margem para a apologia àqueles que os desferem. Assim, repudiamos a ridicularização da grave ameaça imposta a reféns e a policiais no cumprimento de seu dever. Repudiamos a irresponsabilidade de zombar do medo que a todos assola.

Precisamos de penas mais duras para quem domina uma cidade inteira, transformando em vítimas os que nela habitam. Mas muito mais do que isso: precisamos repensar o atual sistema de segurança pública. A responsabilidade é de todos nós – nós, servidores e gestores da segurança pública; nós, comunicadores; nós, indivíduos submetidos ao poder de uma criminalidade desenfreada!

 

Julio Cesar Nunes dos Santos

Agente de Polícia Federal

Presidente do Sindicato dos Policiais Federais do RS – SINPEF/RS

Diretor da Federação Nacional dos Policiais Federais – FENAPEF

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